Recorte de um retrato – Pio IX-PI

 

Capela de São Miguel
Igreja Matriz Nossa Senhora do Patrocínio

 

 

 

Zezinho Bezerra
…“É milagre é milagre/Eu repito agora/Milagre milagre de Nossa Senhora”


Serra da Baraúna, Pau-Ferro, Alecrim de Bárbara de Alencar! Angico, Juá, Carnaubinha que alojou a Coluna Prestes! Imbuzeiro das graças do Padre Ibiapina! Mandacaru, Pereiros… Lugares sem fim que refletem na cor cinza da mata adormecida pela cantilena da seca, um caleidoscópio de cores que descrevem a vida de um povo. Arraigado povo! Que validos da cunca do imbuzeiro, ao tempo que desfalecem à sua sombra, constroem um tempo… um templo…uma cidade inteira !
Foi conduzida pela memória viva do nosso lugar que cheguei ao Alto do Imbuzeiro, à margem do Rio Condado, em terras pertencentes à Fazenda Carnaubinha, onde em regime de mutirão começou a ser edificada a Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio sob a égide do Padre José Antônio de Maria Ibiapina (o apóstolo do nordeste), em 1871. Feito que gerou naturalmente o desenvolvimento do povoado, evocando necessariamente o “mnemon” da sua origem.
Os principais grupos humanos a penetrarem nesse território foram piauienses e cearenses. Sendo Vidal Correia Lima o proprietário da Fazenda Carnaubinha. De família cratense – CE veio a desposar a filha de José do Monte Furtado – piauiense. Os  personagens vão tomando lugar no palco da história que põe à mesa o poder, a imponência. E sendo natural que se desejasse o crescimento que levaria o lugar à condição de sede da freguesia a ser constituída, nada custou aos ‘Monte Furtado’ algumas séries de doações, inclusive da madeira necessária à construção da igreja. Onde em nome de Deus ‘Patrocínio’ cresceria. Assim com “cada filho seu como se fosse o pródigo”, nessas suas andanças pelo Piauí, Padre Ibiapina fez do Alto do Imbuzeiro um altar de sacrifícios e recompensas. Com a força e o trabalho solidário de uma população acostumada a tragar doses diárias de labuta, em três meses de estada nessas terras deixou construída a capela, o cemitério, e bem encaminhada a igreja, para qual reservara o material necessário.
O ano de 1871 abria a porta de uma nova história a um mutirão fervoroso que precisou de apenas sete dias para concluir o templo que serviria de capela e cemitério, até a definitiva mudança para a Igreja que elevaria a localidade a sede de uma freguesia do Piauí. Como de fato, nos primeiros anos da década seguinte (déc. de 80, do século XIX), o povoado tornou-se sede da Freguesia de Pio IX, e nos últimos anos desta mesma década já era sede do Município de Patrocínio. Em 1934 volta ao antigo nome proposto pelo Padre Ibiapina – Pio IX !  De papa a santa, de santa a papa, no Sertão da Minha Terra conta-se assim o nascimento dessa cidade. E através de uma representação afetiva própria de quem viveu num determinado tempo e espaço, é possível fazer um passeio por baixo do imbuzeiro que à margem do Rio Condado, nas proximidades do dito lugar da construção da igreja, abrigava os cavalos que transportavam os feirantes carregados de prosas para contar.
E por falar em prosa para contar…
Nome de padre, de fazendeiro, de papa, de santa, muitas vezes esconde nome de lavrador, de vaqueiro, de oleiro… Pedro Antunes!Foi a esse dito plantador de roça, oleiro nas horas vagas, que recorreu o Padre Ibiapina ao planejar a construção da igreja. Porém era período de lida com os legumes, e ele não podia por fogo na caieira e fabricar os tijolos e as telhas, pois não havia terminado um vão de cerca aberta, o que certamente arruinaria sua lavoura. Ainda que certo de não poder fazê-lo, Pedro foi convencido pelas promessas do padre e de muito bom grado o fez. E qual não foi sua surpresa quando no fim do inverno, mesmo sem a sua dedicação a produção foi abundante. Uma cerca de rama natural fechou o vão aberto na sua roça, nenhum animal invadiu sua plantação, e Pedro sarapantou-se com tanta fartura. O povo considerou o fato um milagre concedido por Nossa Senhora do Patrocínio, vez que a Igreja era em sua homenagem.
Os mais fervorosos fiéis da Igreja Católica tomam até hoje o episódio como fato legítimo e dão graças a Nossa Senhora e ao Padre Ibiapina pela fartura agrícola do oleiro e pelo desenvolvimento da cidade.  O extraordinário pesquisador da cultura popular piononense José de Alencar Bezerra (Zezim Cego) transcreveu a lenda em versos, musicou, e hoje faz parte do populário piononense.“O oleiro Pedro Antunes
construía o seu roçado
ainda faltava um lance
pra completar o cercado
quando o Padre Ibiapina
lhe falou em certa hora:
– Eu desejo que me faça
telhas pra Nossa Senhora

– Padre mestre, meu legume
já começou a nascer
se eu não construir a cerca
sei que os bichos vão comer
– Não, porque Nossa Senhora
cuidará do seu roçado.
O bom homem concordou.
Ficou tudo combinado

Arbustos foram crescendo
Com ramos entrelaçados
Formou-se uma grande cerca
De cipós emaranhados
Gado passava por fora
Podia se ver o rastro
Foi imensa a fortuna
De legumes e de pasto.

…“É milagre é milagre/Eu repito agora/Milagre milagre de Nossa Senhora”
Havemos enfim de considerar que todo povo traz na face a marca da paisagem natural da sua Terra; o seu cheiro, a sua cor, o seu visco…
Baraúna, aroeira, juazeiro, imbuzeiro… um habitat, um poema, um retrato, uma canção, uma lenda, uma cidade !

 

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