Macaco-prego (Cebus libidinosus)

Foto 1

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

Afinal, viemos ou não viemos dos macacos?

Foto 2

Não venho aqui com argumentos científicos nem com a intenção de tratar da origem das espécies. Apenas um dia desses, no mês de julho do ano de 2014, senti um prego bater na minha mão, e senti sua dor rasgando a minha carne!

Foto 3
Essa é a residência do Dário e da Josefina, lá no Mercador-Pio IX-PI. Vendo a foto assim, sugere-se que eu esteja muito a vontade nesse cumprimento caloroso.

Ao ser abordada na porta da casa, segurei a mão desse indivíduo e fiz boa vizinhança, mas certa de que se tivemos um ancestral em comum, isso não contaria num tête-a-tête. Possíveis ataques-defesas poderiam surpreender a minha pessoa demasiadamente humana.

Dito e feito, com seus afiados dentes ele me mordeu! E mordeu mais uma meia dúzia de humanos demasiadamente humanos.

Mas essa história levou alguns meses para ser escrita.

Ouvi os proprietários da casa contarem:

– Um dia chegamos da feira e a casa tava revirada. O teto destelhado, o liquidificador fedendo a queimado, e os depósitos de mantimentos mordidos e destampados. “Demo dicumer a esse bicho infeliz desde o dia que chegou aqui, mas se num levarem ele, num sei não!”

A ameaça estava declarada! Dar abrigo a um macaco não é tarefa fácil! Tanto não é que o destino dessa criaturinha foi jogado numa roleta, onde todos perderam suas apostas.

Foto 4

Não foi difícil convencer o inocente a entrar na jaula, que já lhe parecia familiar. E pude indagar sobre a sua origem, enquanto o levava para o polo universitário onde trabalho.

“Os macacos-pregos são animais primariamente arborícolas, mas são muito adaptáveis e oportunistas, e podem viver em ambientes extremamente perturbados pelo homem, sendo encontrados, inclusive, em ambientes altamente industrializados e urbanizados. Ocorrem no continente sul-americano, e duas espécies são endêmicas do Brasil. São encontrados desde a bacia Amazônica até o sul do Paraguai e norte da Argentina e por todo o Brasil. Por esses territórios, habita uma ampla variedade de formações vegetais, desde as florestas úmidas da Amazônia e Mata Atlântica, até áreas mais secas, como a Caatinga e o Cerrado, assim como o Pantanal, e o Chaco seco na Bolívia e Paraguai” – http://pt.wikipedia.org/wiki/Sapajus.

Sempre tivemos notícias de bandos nos interiores de Pio IX-PI, desafiando as plantações de caju. Muito hábil com as mãos, eles quebram as castanhas usando pedras e pedaços de pau, irritando os plantadores pelo prejuízo na lavoura.

Foto 5

Usurpado da natureza, esse preguinho das fotos foi criado domesticamente, e depois dispensado do convívio de uma, duas, três famílias de humanos. Até ser jogado na mata seca, sem nenhum processo de reeducação. Assim passou a incomodar os moradores, invadindo as residências das localidades de Mercador, Boqueirão, Vertentes etc, no município de Pio IX.

Foi nesse contexto que o encontrei. Achando ser simples o contato com os órgãos responsáveis pela preservação ambiental no Piauí, e com o intuito de garantir-lhe um lugar seguro, fiquei com essa adorável criatura por mais de três meses, aguardando o resgate.

Foto 6

Sofri com sua carência, seu desejo de colo, sua vontade de ser livre. Observei seus desejos e necessidades, suas intenções e preferências, sua capacidade de sofrer e sentir prazer. Sua traquinagem, sua autodefesa, sua genialidade, sua bagunça e destruição. Fui apedrejada, mordida, me vacinei, senti medo! Tomei chuva ao seu lado pra não deixá-lo só, me irritei, perdi sono, chorei, sorri…

Até que finalmente o Ibama chegou para fazer aquilo que eu sempre soube ser inadequado: soltá-lo na natureza.
Sem o acompanhamento de um especialista, para seguir toda a complexidade técnica e científica necessária para esta reintrodução, o macaco foi levado para a cidade de Guadalupe-PI, onde há ilhas formadas pelo lago da Usina Hidrelétrica da Boa Esperança.

Nunca saberemos seu fim, mas estará lutando entre os seus para sobreviver.

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