Em busca do “não lugar”

Prólogo

Não estaria louca, e é certo que não estava a sonhar. Já passava das nove horas da manhã do dia 31‎ de ‎dezembro. Eles compravam cervejas e vinhos para a virada do ano, e pães e queijos e frutas, pensando na lonjura do lugar. O supermercado pareceu-lhe um corredor cheio de pensamentos. “Longe é um lugar que não existe”! Lembrou-se das suas leituras de adolescência, quando Richard Bach trazia respostas às suas inquietações. Teve uma visão do Fernão Capelo Gaivota desfolhando-se na prateleira, imprimindo a velha dedicatória: “Por te ver sempre viva e livre te associei a esse livro, que é um hino ao amor e a liberdade. Se você conjugar sua vida com a minha serei um verdadeiro Fernão Capelo Gaivota”.
Muitos anos se passaram até que suas asas se rompessem no grande abismo. Nunca conjugou sua vida a coisa alguma. E agora ali não sentia nada além de sensações ocas, vazias de sentimento. Seguia a um “não lugar” qualquer, repaginando a vida por metáforas. Sem pressa que as portas do futuro se abram a sua solidão.
Vinte anos a distanciava dos passageiros. Sabia que o controle do “Destiny” estava nas mãos dos dois meninos e da menina de óculos, que a levariam a uma viagem instantânea numa velocidade infinita. A Teoria da Relatividade de Albert Einstein veio-lhe a cabeça, e a impulsionou a penetrar nas fendas do espaço-tempo. Precisaria se mover naquele dito espaço tridimensional, multidimensional, criado por eles. Desejava transpor as curvaturas da terra e encontrar a ponte para o sempre.
Eram exatamente 10:36:04 quando a ponte surgiu como um gavião-de-asa-larga sobre seus corpos prensados embaixo do bitrem. Um anjo bizarro tragou as quatro vidas suspensas no ar deslizando-as pelo reino do sono. As fendas se abriam por uma quarta dimensão e dobrava o espaço que ligava ao “além-do-homem”.
O novo ano começava ali, ‏‎10:41:54, daquele 31 de dezembro, com suas almas soltas, enlaçadas pela força da regenerescência do poder das águas. Ouviu-se o “ploc” do desarrolhar da garrafa de vinho, aberto sem muito cuidado, com o antigo saca rolhas de espiral e haste em “T”. Nos seus 27 anos era comum ele prender a garrafa entre as pernas, para ajudar na retirada da rolha, e certamente durante o ritual nunca refletira sobre a espiral, com voltas helicoidais, preservando intacta a cortiça que usaria na confecção da cortina do seu novo apartamento de recém-casado. Tudo se movimenta em forma ondulatória, é verdade! Toda a energia que se propaga no espaço tem esta forma e este fluxo!

Sinais de fumaça ondulavam pelo ar sobre a ponte, grafando formas de enxergar o mundo. Podia se sentir a energia do BigBang ainda atuando no universo. Dor, prazer, angústia, tranquilidade… Cada um sabia de si! Mas naquele instante exato havia apenas quatro crianças harmonizando as vibrações da aura, despertando os sentidos da alma.

I

 “Mas, agora,
 é o chão dos chacais; agora,
 é o vento uivando nos vales
 sobre o calor do sangue
 e da memória.”

Atravessou a ponte pensando nos versos do poeta maranhense, com quem dividiu a mesa no último aniversário do seu inquieto, e afetuoso amigo literata.

Viu muitas vidas se partirem assim. Ao longe era possível ouvir o dueto entre Amy Winehouse e Elis Regina. Sentiu o tremor da batida invertida de Jim Morrison… e Janis Joplin… e o roqueiro que acabara de conhecer. Caído no banheiro seu coração já não pulsava na sua euforia.

Dias atrás ele pegara o velho navio na companhia do seu amigo George Harrison. Não há lembranças de ouvi-lo cantar nada de Harrison nessa passagem, mas o vento do mar agora soprava no seu ouvido “Long Long Long”…

 

It’s been a long long long time/How could I ever have lost you/
When I loved you./It took a long long long time,
Now I’m so happy I found you,/How I love you.
So many tears I was searching,/So many tears I was wasting,
Oh Oh now I can see you, be you,/How can I ever misplace you.
How I want you,/Oh I love you,
You know that I need you,/Ooh I love you

Tantas luas se passaram até ser chamado pelo canto da sereia para fazer a travessia. Atravessaram os sete mares da solidão até se reencontrarem naquele porto – ele e a professora de história da Universidade Federal do Piauí.

Tudo começou na Idade dos Plásticos. “Crianças frenéticas cantavam hinos ao plástico… e ELE caminhava entre jardins coloridos. E uma garota com seus cabelos sintéticos LHE disse que o tempo ninguém conserta”…

Aquele menino banhara-se nas águas da religião. No colégio de padres onde estudara era treinado para ser um “Soldado de Deus”. Difícil era cumprir a regra de subir as escadas sempre pelo lado esquerdo e descer pelo lado direito.

O sacerdote jesuíta, nascido em Bérgamo na Itália e radicado no Brasil desde os anos 50, foi seu professor de química, dizia ele naquele fim de tarde do dia em que se sentava para jantar na sua revisitada cidade natal. Era 27 de dezembro de 2014 quando ele relembrava a figura mitológica do padre Florêncio.

 

“Quando o menino, quando o mancebo estiver assim fortificado, por uma
educação essencialmente religiosa, quando sua alma banhar-se nas águas
salutares da religião, será então e somente então, que sob a égide dessa
mesma religião, poderá ele arriscar a travessia e confiar ao mar tempestuoso
do mundo a frágil barquinha dos seus quinze anos, certo de poder,
em caso de perigo, lançar bem funda a âncora que piedosos hábitos lhe prepararam,
pois, diz a Escritura, o mancebo seguirá a rota que tiver percorrido
 em sua adolescência e jamais se afastará dela, mesmo na velhice”.  
 “GUERRA SECTÁRIA”: ENSINO CATÓLICO E ENSINO LAICO NO PIAUÍ
NAS DUAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX
Áurea da Paz Pinheiro – UFPI

Influenciado pelos acordes dissonantes da escola diocesana, e levado ao reconhecimento dos naipes da orquestra e dos instrumentos, fora induzido a se apresentar nas missas dominicais. Era um preço justíssimo, dissera!

Mas não tardou, estava pronto para se jogar no mar tempestuoso na dita Idade dos Plásticos!

Eram os anos 80! Época em que a juventude do Brasil vivenciava a tal liberdade consentida. Tempo de abertura política! E aquele estudante de economia debatia o enterro da expansão econômica vivida nos anos 70, entre uma pegada e outra nas íntimas partes das garotas que desfilavam a pós modernidade nos estreitos corredores do CCHL. Ali ele arriscou fazer a travessia e se jogar ao mar tempestuoso, sob a égide da ‘Police’, do exagero e da ostentação (e não da religião).

O escudo mágico do rock manifestou sua força, e as quintas-feiras ufpianas lhe deram voz, retrataram seus sonhos, suas insatisfações (“But my silent fears have gripped me/Long before I reach the phone/Long before my tongue has tripped me/Must I always be alone?”). E sob sua proteção, seu poder, e seu pleno acordo, fizeram ele romper com as convenções diocesanas.

Flávio de Castro içou âncora e soltou as amarras. Cantou o canto da nova geração:

A IDADE DO PLÁSTICO
Em 3005, crianças frenéticas
Cantavam hinos ao plástico
E eu caminhava entre jardins coloridos.
Fortes e vibrantes.
Cores ou corantes?
E uma garota com seus cabelos sintéticos
Me disse que o tempo, ninguém conserta…
E eu sorri na sua cara
Como uma boa desculpa…
Em 3005, crianças cantavam hinos ao “Plástico”
NOIGANDRES, ANOS 80- Marcos de Oliveira, Machado Junior, Flávio de Castro e Alexandre Rabêlo.

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