Tempo de Brincar

Pio IX – PI

Nasci no ano de 1967, aqui mesmo onde fiz morada.  Isso me sugere recurso à memória, pois me remete ao tempo em que tomava banho de bacia, debaixo do pé de laranja, com um casal de papagaios cantando “Jesus Cristo” de Roberto Carlos, e soletrando as populares quadrinhas: “Corrupaco, papaco, a mulher do macaco, ela pita, ela masca, ela fuma torrado” PRUUUU!!! (som que saia da boca de meu pai soprando água para banhá-los).

A imagem aparece como uma fotografia. Aquela bacia de esmalte branco com tampos arrancados que pareciam feridas na pele. Mal cabiam 03 litros d’água… e nunca estive tão limpa!

Um prego gigante escravizava a vida daquelas aves acorrentadas, e eu paguei por um crime do qual nunca tive consciência. Sempre andava desobedientemente descalça (e ando), e pisei fortemente naquele pelourinho de papagaio, rasgando profundamente minha carne. Foi saltitando num pé só que fui pegar meu reloginho lindo e dourado, talvez o único presente de um pai preparado exclusivamente para dar de comer a um exército de 11 filhos.

Minha mãe tinha mãos de fada para tecer, bordar, costurar, sendo que qualquer nesga de pano virava um vestido luxuoso, com casinhas de abelha, digno de uma princesa. Eu tinha cabelos grandes, anelados, cor de mel, excessivamente penteados em cachos e rabos de cavalo. A pele era branca como dos personagens de contos de fadas. O Padre João só me chamava de Branca de Neve! Assim não foi difícil viver entre sonhos de uma infância feliz, sem bruxas e maçãs envenenadas, e cercada de heróis imaginários.

01É certo que nunca me saiu da cabeça a cena de uma noite em que dormi enfeitada de fantasias. Eu ganhara em sonho uma boneca grande, do tamanho de um bebê de verdade. Ofuscada pela réstia que batia na minha cara, pelejava para abrir os olhos ao alvorecer e ninar em meus braços a boneca que nunca tive. Minha irmã prometera que se eu rezasse para que ela passasse no concurso do BNB me daria uma “Papinha” igual a de uma das minhas inseparáveis amigas. Deu certo a aprovação no concurso mas nunca tive minha boneca.

Se fui menos feliz por isso? Claro que não! E entendo conceitualmente hoje que a felicidade vem de dentro. Quão feliz fui eu, aprendendo a andar de bicicleta naquela de tamanho ultrapassado, perdida entre as minhas pernas crescidas. Minha amiga ganhou uma novinha, do seu tamanho, e emprestou-me a azulzinha que facilitava o salto na hora da queda. Desembestava repetidamente na ladeira que dava ao centro da cidade, até ganhar uma habilidade no guidão que trago até hoje, quando andar de bicicleta é um hábito tão prazeroso quanto naquela época.

Nem as travessuras do meu irmão, que o levavam a pendurar as pobres das “minhas filhas” por uma corda suspensa pelo pescoço, só para escutar o meu berro, nem isso, me traz más recordações. Lembro da cara da minha monicazinha, que ganhei junto com um gibi, sendo alvejada no meio dos seus dentões por uma espingarda de chumbinho. Tortura vã! Meus choros eram compensados por mais e mais brincadeiras.

Se brincar é o prazer de toda criança, foi entre prazeres que cresci. Tempos de quintais e calçadas!  De rodas, de parafusos: “quem quiser ver o parafuso, corra logo e venha ver, é ligeiro como o fuso que vai logo se esconder”.

 A infância se esconde rápido! E a procuramos por todo o resto das nossas vidas.

 Que nunca falte brincadeiras e amizades a todas as crianças! Eu, que sempre as tive, atesto a felicidade possível nesse universo. E dou um viva à Turma da Roda!

Que sobrevivam as turmas para correr de bandeira em bandeira num rouba e prende sem fim; para passear na praça; fazer guisados em panelinhas de barro; amar as bonecas de papel, de pano, de pau, de melancia; de sabugo…

Que permaneçam os encontros para jogos de xibiu, de bola, de esconde… E macacos os mordam! Como a mim… que riscava o macaco na calçada de casa com restos de gesso. Pulava do céu ao inferno tantas vezes me fosse permitido, incansavelmente! E reflito agora como pais tão carrascos podiam me dar tanta liberdade para ser feliz!

Se o circo chegava na cidade, com seus dramas teatrais, era razão para meses de imitações nos fundos dos quintais. Lembro bem de uma peça de circo chamada “A Louca do Jardim”. Nas nossas reconstituições sobrava criatividade para apresentar “As Três Floristas”: nós somos 3 floristas, 3 floristas bonitinhas, viemos vender flores pra ganhar um dinheirinho. A flor que é a que trago foi colhida no sereno e venho oferecer aquele belo moreno”. E por aí vai… Palhaços e bailarinas, malabaristas e mágicos! Os pais, se tomavam conhecimento ficavam bem nos bastidores, enquanto pegávamos escondido seus apetrechos para montar nossos shows.

E por falar em louca, há quem se divertisse cantando fogo pagou, tem dó de mim, o menino matou a rolinha comeu com farinha e gostou, fogo pagou’! Só pra ver Ritinha Doida praguejar seiscentos mil nomes feios.

São memórias simples, de uma infância em liberdade. Com casinhas de bonecas feitas com caixas de “pasta” e pratinhos de caco de vidro. Com tempo de sobra para campear as galinhas em cavalo de pau, até levar “um gato” de um pai furioso com tamanha gritaria: có có có có có

Aquela garota que tinha por gosto jogar pedrinhas, hoje campeia retratos de crianças felizes, que dão alma as coisas mais simples.

 

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