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COMO E PORQUE ME TORNEI A ROSA DA CAATINGA

Colecionando Figurinhas

Comecei minha coleção de figurinhas quando ainda menina (década de 80). Meus irmãos sempre me davam uma câmera descartável que recebiam no ato das revelações. Love! Era esse o nome da criatura. Talvez isso explique esse meu caso de Amor com a fotografia.

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A Lulu (uma amiga de infância) me fez lembrar, outro dia, que saíamos, às vezes, fotografando a torto e a direito, pra só no final descobrirmos que não havia mais vaga no filme. Já nesse tempo o envolvimento com o fotografado se confundia com o desejo da fotografia. É claro que ainda não havia escolhido com quem casaria, mas os seres da caatinga já me assediavam.

Tempos depois me perguntaram o que era mais importante pra mim, se o ato de fotografar e a imagem adquirida, ou se os seres fotografados. Interpretei que a pergunta era “você é capaz de ameaçar a vida de um ser da caatinga em busca de boa imagem?” De súbito eu não soube responder. É tão compulsiva a trama fotográfica, que confesso já me levou a sacrificar alguns seres. Pra que eu fizesse a infância e adolescência dos sabiás com uma câmera compacta, por exemplo, incomodei ao extremo os bichinhos. Puxei uma cobrinha da boca de um filhote porque achei que a mãe havia exagerado na porção, quebrei alguns galhinhos da árvore pra facilitar um pouco minha visão, provoquei a morte de um filhote porque decidi trazê-lo pra passar um temporal dentro de casa, e por aí vai. Bom, é verdade que em contrapartida levei uns rasantes na cabeça da mamãe sabiá, que passou a me odiar. Levei bronca do velho e rabugento meu pai, por essa dedicada estupidez de fotógrafa que não respeita o resguardo de uma mãe, etc.

Tudo isso pode até levar a crer que a fotografia esteja acima dos fotografados. Porém mesmo sem querer falar de intenções, devo dizer que os efeitos da minha fotografia – coleção de figurinhas – têm sido muito mais benéficos do que maléficos. Na pior das hipóteses tem interferido no olhar sobre o valor estético da caatinga. Ver as crianças disputarem cada número da série de postais que a prefeitura distribuía num evento de idosos, me fez crer que nem só de Power Ranger vivem as criancinhas.

Mas o que realmente sei da importância desse trabalho é que, toda compulsão desaparece quando esses seres – da caatinga – saem do meu campo visual. Sou incapaz de dar um clic sequer diante das mais extraordinárias paisagens. Talvez a paixão esteja além da fotografia e dos seres fotografados. A minha fissura está em fazer da minha coleção um testemunho da felicidade possível dentro do contexto do semiárido. É a felicidade, simples e óbvia, o meu foco. E se você acha impossível ver a felicidade, sinta! Já é o bastante!

Passei uma temporada em Teresina-PI, onde conclui minha primeira graduação, em história. Lá a chuva mete medo. Os trovões não dialogam, guerreiam! E corisco não perdoa! E quando voltei a Pio IX, no início da década de 90, subitamente percebi que os espaços geográficos, os biomas, os ecossistemas, seja lá qual for o nome que denomina o lugar onde vivemos, além das análises cientificamente geográficas, históricas, biológicas etc, devem ser descritos e/ou compreendidos dentro de uma responsável contextualização, sem descartar sua imensa subjetividade.
E foi imbuída do impacto dessa subjetividade, que eu passei a fotografar minha terra.

Não tenho, até hoje, nenhuma pretensão em vender ilusões, nem tão pouco de expor um quadro ‘real’, do que é o meu lugar, sob a pretensão dos estudos da pesquisa científica. Apenas sinto que esta é a terra que é minha, e a interpreto multifocalmente, e tanto quanto possível, apaixonadamente!!!

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“Por viver muitos anos dentro da mata/Moda ave/ O menino pegou um olhar de pássaro – Contraiu visão Fontana –/Por forma que ele enxergava as coisas por igual/ Como os pássaros enxergam.” (Manoel de Barros).

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Se contrai visão Fontana não sei, o certo é que de tanto adentrar veredas em busca de imagens do modo de vida próprio dos seres da caatinga, no seu fazer cotidiano, passei a enxergar além do que as lentes fotográficas nos permitem. Suponho que essa variabilidade da visão dos pássaros tenha me contaminado.

E cedo descobri que a minha relação com a fotografia não passa apenas por um simples olhar, como uma paquera a moda antiga. É mais uma paixão, dessas avassaladoras, que nos faz saltar cercas, se embrenhar mata adentro, conversar com minúsculos seres, chorar de dor e sorrir de encantamento.

É qualquer coisa que me faz mais que um guardador de rebanhos, que me transforma em um pastor amoroso. E é pastorando amorosamente que vou com a luz dos céus, descrevendo as cores e formas e fatos da caatinga, do sertão do semiárido dos cafundós do interior do Piauí.

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FOTO ROSA MELO_ROSA DA CAATINGARosa Melo ou Rosilandia Melo de Alencar Maia – Possui graduação em História pela Universidade Federal do Piauí (1994) e graduação em Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade Estadual do Piauí (2008). Professora da Rede Pública de Ensino do Estado do Piauí (1985…) e do Ceará (1998).

Atualmente é coordenadora de polo da Universidade Aberta do Brasil como bolsista da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Administração de Unidades Educativas, e com ênfase em Arte-educação e Cultura Popular, e experiência em Magistério do Ensino Superior com ênfase em História e disciplinas afins.

Utiliza a fotografia como instrumento de socialização de conhecimentos e otimização das relações entre o homem e o meio no semiárido.

(Currículo completo de Rosa Melo – CLIQUE AQUI)

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